terça-feira, 18 de setembro de 2012

Que pesadelo!


Soninha, que tem quatro anos, teve um terrível pesadelo à noite. Um bicho muito feio e grande corria atrás dela tentando mordê-la. Ela gritava, procurava escapar, até que acordou chorando, e se deparou com a mãe que vinha acalmá-la. Muito brava e assustada, perguntou: 'porque você  não foi lá para me ajudar?'

Entre 3 e 6 anos aproximadamente, é comum as crianças terem pesadelos com temas  relacionados a situações de  perseguições, devoramentos, desaparecimentos, ataques, diante das quais ficam incapazes de se proteger.
Os sonhos são uma produção psíquica que nos permite continuar a dormir enquanto a cabeça prossegue ativa, buscando digerir as experiências vividas. Quando a angustia que surge no sonho é grande, ele perde sua função de manter o sono e acordamos.
 Uma criança como a do nosso exemplo, não é capaz ainda de fazer completamente a distinção entre o que pertence à realidade e o que é sonho. O crescimento lhe permitirá reconhecer quando se trata de um produto do seu mundo interno.
Muitas vezes, para acalmar os filhos, os pais tentam separar o pesadelo do resto da vida, diminuindo a importância do sonho: 'é bobagem, não é de verdade!' . Enganam-se. Soninha, quando corre do bicho, mostra que está enfrentando ameaças  diante das quais se sente enfraquecida. Essas situações ameaçadoras podem não estar ocorrendo 'na realidade'. Entretanto, são verdadeiras para a criança que, especialmente nessa fase da vida, experimenta rivalidades, sentimentos de exclusão e desejos de excluir. Está em plena luta por seu lugar no mundo, pelo amor dos pais.
 Conversar sobre esses bichos, deixá-la falar sobre eles, pensar o que poderia fazer para se proteger, são recursos que podem ajudá-la. Com o tempo, encontrará maneiras de enfrentar as ameaças, que não lhe 'tirem o sono'.

Marcia Arantes e Helena Grinover

vivazpsicologia.blogspot.com.br

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Criança não namora!



















Assim se inicia uma conversa entre a menina de oito anos e sua mãe: 'Mãe, sabia que a Rita namora o Edu?' .Assustada e curiosa a mãe pergunta: 'O que eles fazem, filha? '. 'Ficam juntos, ué!'. ' Mas juntos como?'  'Ah, mãe, você sabe'. 'Não sei, como é? Beijam, beijam na boca?' 'Sei lá ', diz a criança com um gesto de quem perdeu a paciência e se distancia calada.

Na faixa de sete a onze ou doze, há ensaios e maior abertura para amizades, mas os  laços amorosos mais importantes ainda permanecem atados ao grupo familiar.
Namoro é o que acontece após a puberdade, quando o desejo de amor e carinho se concentra fortemente nas figuras de fora da família.

Seria interessante que o dito 'namoro' das crianças pudesse ser visto por seus pais e educadores como uma atividade completamente diferente daquela dos adolescentes e adultos. Trata-se, na infância, de relações movidas pela curiosidade, pelo desejo de imitar os mais velhos. As preferências afetivas são instáveis e periféricas. 

Os educadores, ao atribuírem precocemente uma etapa sexual à criança, a afastam daquilo que é próprio da idade, como o aprendizado escolar, o companheirismo nas brincadeiras, o convívio despreocupado e espontâneo entre meninos e meninas.

A garota da nossa história fala de 'namoro' para ver o que sua mãe comenta sobre o assunto. A mãe, talvez assustada com a própria interpretação dos fatos, se expressa como quem está diante de um relacionamento de adolescentes.  Deixa, dessa maneira, a menina confusa e inibida com a dificuldade de explicar o que está se passando. Cabe aos adultos apontar a diferença entre brincar e namorar, imitar os mais velhos, ser criança e ser adolescente. A Rita e o Edu 'ficam juntos' na hora do lanche, depois correm com os amigos pelo pátio...

terça-feira, 4 de setembro de 2012

A privacidade da criança


Julia, educadora de uma creche para bebês, relata que fica aflita quando vai trocar Ana, de sete meses, porque assim que abre as fraldas, a bebezinha coloca a mão nos genitais. Julia tem procurado terminar tudo rapidamente para não dar tempo a Ana de se tocar, mas tem dúvidas a respeito dessa conduta...
Natália está com seis anos. A mãe observa que ela fica muito tempo diante da televisão, em estado quase letárgico, com as mãos dentro da roupa. O que fazer?
Uma grande parte dos educadores está consciente, nos dias de hoje, de que a manipulação dos genitais pela criança não deve ser coibida, devido à  importância dessa estimulação para o desenvolvimento psíquico e sexual.
O uso do próprio corpo como fonte de sensações deve variar em função das idades e do ambiente social. Ana pode ficar algum tempo sem as fraldas para fazer descobertas, enquanto Natália precisa ser orientada a deixar de mexer dentro da roupa quando estiver com outras pessoas na sala.
O desafio para os educadores é encontrar os limites para esses comportamentos e ao mesmo tempo permitir privacidade, de maneira que cada criança desenvolva formas particulares e únicas de obter prazer. Parece-nos importante, para que isso ocorra, que a intromissão dos adultos se restrinja exclusivamente a indicar o que não deve ser feito. É desnecessário, por exemplo, dizer aos pequenos: 'faça isso no seu quarto', ou 'no banheiro'...
Descobrir os caminhos e os lugares para a exploração do corpo em 'segredo' também faz parte da construção da sexualidade.

Helena Grinover e Marcia Arantes

vivazpsicologia.blogspot.com.br



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terça-feira, 28 de agosto de 2012

Incômodos palavrões.




















'Meu filho Felipe, de quatro anos, brinca no playgroud com crianças bem mais velhas e aprende umas coisas inadequadas para sua idade.  Agora deu para falar palavrões terríveis, e pior, fala na frente das pessoas. Fico brava, envergonhada, a situação só piora'.
As crianças não têm nenhuma condição de saber o que estão dizendo quando usam palavrões que remetem à sexualidade madura. Os adultos, com toda razão, ficam incomodados diante desses pequenos que se referem à um mundo de experiências e conhecimentos do qual deveriam estar excluidos. Mas essa é a questão: eles querem se incluir!
Repetir o que dizem os outros é uma maneira de se inserir própria dos humanos. Toda a linguagem é adquirida por meio da repetição. No início, é como se as palavras fossem ocas, sem significação, aos poucos elas vão ganhando conteúdo.
Quando Felipe pronuncia os palavrões está procurando decifrar seus significados e assim participar do grupo dos maiores. Percebe que eles estão 'por dentro' de algo que ele não entende e isso o atrai profundamente...
Um movimento semelhante é feito com assuntos que a família, por exemplo, considera impróprios para as crianças. São frequentemente mencionados por elas, que não sabem do que se trata, mas sabem como procurar o que há por trás disso que é tão reservado. Causam bastante incômodo!
A curiosidade e o desejo de participação são importantes, não devem ser esmagados com reações violentas.  Entretanto, dizer palavrões constrangedores é um comportamento que merece limites.

Helena Grinover e Marcia Arantes

vivazpsicologia.blogspot.com.br




terça-feira, 21 de agosto de 2012

Quem dá a ultima palavra?

Nos últimos tempos, a mãe de Marcelo tem se defrontado com uma negociação constante. Sempre que pede a ele para fazer algo que o desagrada, o garoto resiste muito. Quando finalmente aceita, diz o segunite: tá, mas eu que faço!
A condição aparece em várias  situações: 'eu que desligo a televisão para ir tomar banho', 'eu que tranco a porta na hora de sair', 'eu que empurro o carrinho no supermercado, 'eu que pego o shampoo' e por aí vai...
Quando não é possível deixar que Marcelo fique com ultima palavra, ou seja suas condições não são aceitas, ele fica extremamente frustrado, bravo e se põe a chorar. O que estaria acontecendo?
O  menino está com três anos, já construiu a idéia de que é alguém nesse mundo, mas ter que abrir mão dos seus desejos lhe parece quase como deixar de existir. Torna-se insuportável, nesses momentos, receber ordens sem ter outra alternativa que não seja a de obedecer e ponto final. Precisa colocar seu 'eu' em primeiro lugar, para depois poder acatar o desejo dos outros.
Seria hora de fazer valer a palavra dos adultos? O respeito à autoridade estaria em cheque? Visto que a insistência de Marcelo é grande, assim como a dor, ao ter que se submeter, pensamos que é hora de dar a ele algum espaço para o exercício do poder. O garotinho está cultivando um brotinho de personalidade que, como semente que acaba de despontar, precisa de sol e ar para se fortalecer.
Convém  fazer como sua mãe tem feito: quando for possível, permitir que ele dê a última palavra. Caso contrário é ela quem define os limites, protegendo e podando a 'plantinha'. As duas atitudes são importantes!

Helena Grinover e Marcia Arantes



terça-feira, 14 de agosto de 2012

A história da chupeta.


















Lucinha estava com quatro anos e carregava sua chupeta de estimação para todo lado. Isso constrangia bastante a mãe, que já havia sido alertada por várias pessoas: educadores, dentista, amigos. Já tentara de muitas maneiras fazê-la largar: promessas, ameaças, comparações... tudo em vão. Até que um dia, a caminho da escola, atravessando uma ponte sobre o rio, a mãe  sugeriu a Lucia que  jogasse a chupeta para o rio levá-la. A menina concordou e combinaram que no dia seguinte fariam isso. Proposta ousada, pois não haveria retorno... Assim foi feito, e como das outras vezes, a garotinha pediu de volta o objeto querido. Então a mãe explicou que a chupeta não poderia voltar, mas propôs a Lucia que  construíssem um barquinho de papel e o jogassem no rio para ele fosse encontrar-se com a chupeta. A partir de então, Lucinha colocou vários barquinhos na água, até que um dia 'se esqueceu' da chupeta...
Sabemos que muitos pais enfrentam a dificuldade de ajudar seus filhos a se desprenderem de objetos, ou de atitudes que se fixam insistentemente. A substituição dessas ligações deve ocorrer como um barquinho que desliza na água, passando de um lugar para o outro. Os adultos que acompanham esses movimentos de passagem são testemunhas das novas aquisições que surgem quando a criança larga a chupeta, deixa a mamadeira, para de chupar o dedo. Aparecem desenvolvimentos na fala, nas brincadeiras, nos interesses por companheiros, na coordenação motora.
 A mãe do nosso exemplo teve uma ideia bastante criativa: forneceu o recurso para que a pequena pudesse se soltar do objeto ao qual estava atada. A menina ficava um bom tempo do dia parada, praticando o chupeteio com o olhar meio perdido, desligada do mundo ao seu redor. Ela ajudou a garota a se divertir com outro prazer, o de fazer barquinhos irem pelo rio e imaginar histórias.
Esperamos que Lucia continue encontrando  e usando  recursos que lhe permitam circular por águas antes não navegadas...

Marcia Arantes e Helena Grinover





sábado, 4 de agosto de 2012

Meninos e bonecas...



Antônio tem dois anos e gosta muito de brincar com uma bonequinha de pano que era de sua irmã. Abre as pernas da boneca, diz que ela fez xixí, limpa, troca as fraldas, dá a chupeta...Sorte dele que herdou os brinquedos da  menina.
A curiosidade em relação ao corpo se inicia com a observação e exploração dos seus orifícios. O primeiro é a boca, seguido por aqueles da eliminação de urina e fezes. Depois, vêm os genitais e, juntamente com essa etapa da pesquisa corporal, as crianças se colocam grandes questões sobre a vida: de onde eu vim, quem sou eu ou quem são meus pais, para onde vou.
Todos nós experimentamos certo deslumbramento com a investigação do universo e de nossas origens. Assim se atiça um trabalho de busca que acompanha os humanos ao longo dos anos, movidos pelo desejo de saber. A aprendizagem, tão relevante no aproveitamento escolar, está diretamente ligada a essa vontade de conhecer.
Graças aos brinquedos, as crianças têm acesso a uma parte do mundo que de outra maneira seria impossível manipular e explorar. Quando Antonio brinca com a boneca, um 'pequeno ser semelhante', pode fazer livremente, no campo da fantasia, tudo o que não convém que faça na realidade, ou seja, no corpo das pessoas e dele mesmo. 
É importante que os pequeninos meninos e meninas possam ter bonecos, bonecas, mamadeiras, chupetas, para que reproduzam os cuidados que recebem dos adultos e se encantem com as cenas e pensamentos que o corpo humano lhes desperta.

Helena Grinover e Marcia Arantes