sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Eu quero o papai!




















'Sai daqui, mamãe, quero só o papai!' 'Quero que a mamãe me dê comida, você é feio!' 'É o papai que vai contar a estória, você não sabe!' 'Vai embora!'
Pais e mães já viveram ou, quase com certeza, viverão situações como essas. A criança, por volta dos três anos, demonstra escolha por um ou outro, exclui o que considera estar 'a mais', sem meias palavras nem compaixão. Muitas vezes essas preferências se alternam ou se estendem a outros membros da família e, principalmente, mudam conforme a idade.
Quando estão na posição de 'excluídos', os adultos são tomados pelos mais variados sentimentos, e se perguntam sobre o motivo da atitude dos pequenos.
Nessa idade a criança sabe, com mais clareza, que não participa de todas as situações. Tanto a mãe quanto o pai têm interesses dos quais ela está excluída - veja neste blog o texto 'Mamãe foi trabalhar'. Seu desenvolvimento a leva a entender que há uma ligação entre o casal que também não a inclui. O desejo de voltar à situação de bebê, onde se sentia exclusiva, é grande, assim como o de usufruir do que imagina existir entre os adultos. Será uma longa travessia, até a puberdade, para ela entender que as relações amorosas são muito diferentes, pais, filhos, irmãos, amigos, cada um tem seu papel.
Não é fácil suportar a rejeição vinda dos filhos ainda pequenos e, por vezes, os adultos tendem a revidar, devolvendo a "ofensa" de alguma maneira. É uma reação compreensível. Porém, quando puderem mostrar à criança que seus momentos de preferência por um ou outro não estragam os relacionamentos, estarão fortalecendo a confiança nos vínculos familiares e indicando que o lugar do filhote de três anos é bem diferente daquele dos seus pais. 
Será ótimo para a menininha saber que a mamãe ou o papai não gostam de 'desaforos e ofensas', mas continuam em suas posições, cuidando dela. 


Marcia Arantes e Helena Grinover
Caso seu filho apresente um sofrimento persistente, marque um horário para conversar.




































sábado, 11 de fevereiro de 2012

Mamãe foi trabalhar


















Essa foi a conversa entre mãe e filha de dois anos, de manhã cedo, no momento em que se despediam. 'Filha, a mamãe agora vai trabalhar'. 'Mas você não precisa ir, o papai já foi', disse a pequena. 
A avó canta para o neto, cujos pais haviam saído: 'papai foi prá roça, mamãe foi trabalhar'. O garotinho interrompe a música e diz 'não, é o papai que foi trabalhar'.
Assim que nascem, os bebês ocupam um espaço enorme na vida de suas mães. O dia e a noite são tomados por todos os cuidados que o recém nascido precisa. Há mães que não arrumam tempo para tomar banho, escovar os dentes, realizar os cuidados mínimos de que elas mesmas precisam, e isso é bastante normal. 
'Filho, você é tudo na minha vida'. Quem já não ouviu essa frase dita pela mãe ao seu bebê? Isso quer dizer que quem tem um filho não precisa de mais nada? Certamente não, porém os bebês precisam, num primeiro momento, ocupar o lugar de ser tudo na vida de alguém. É o período em que se assenta o primeiro tijolo na construção desse novo sujeito: os sentimentos da mãe estão todos voltados para o filho, ele é o centro da vida. Aos poucos a criancinha vai sendo deslocada desse lugar, a mãe vai abrindo espaço para outros interesses. É o momento em que ela ajuda o filho a fazer a passagem do 'ser tudo' para o 'não ser tudo' para sua mãe.
As criancinhas reagem, como mostram nossos exemplos, ao verificarem que o papai, o trabalho ou um papo com as amigas, as afastam da mamãe. As mulheres mães, por sua vez, sentem-se divididas. Para tranquilizá-las, podemos dizer que ao deslocarem a criança do centro, depois de a terem aí instalado, estão criando condições para que ela prossiga no seu desenvolvimento. 
O pequeno ser fica em outra posição quando aquela que diz 'você é tudo' sai em busca da realização de desejos e necessidades que ele não pode atender. A partir dessa nova posição ele poderá perceber que há um poder acima dele que comanda a vida da mãe, o que fornecerá a base para a sua vida em sociedade. 
A inserção social em todos os seus aspectos, desde a aceitação de regras e limites, noção de igualdade de direitos, respeito às diferenças, reconhecimento de autoridade, realização de potenciais, é um longo caminho. Este se inicia com a noção precoce de que existe uma organização maior , à qual até seus pais estão submetidos.


Helena Grinover e Marcia Arantes
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sábado, 4 de fevereiro de 2012

Bloqueio para matemática???

























'Quando eu era criança, meus pais diziam que eu não tinha jeito para matemática. Toda vez que estou às voltas com cálculos, lembro-me dessa afirmação. Vocês deveriam escrever sobre isso, não é bom os pais dizerem esse tipo de coisa para os filhos.' Esse é o pedido de um adulto de aproximadamente 60 anos, leitor assíduo desse blog.
A ideia de 'quem eu sou' é influenciada nos primeiros anos de vida por aqueles que cuidam da criança. A história do seu nascimento, as expectativas que se tem sobre ela, são transmitidas pelas palavras dos adultos. Afirmações como: você é danadinho, magro, forte, bom de bola, parecido com seu tio 'boa vida', vão conferindo uma identidade. Enquanto a criança é pequena e dependente, absorve essas atribuições para se definir como pessoa , ter uma 'cara', como se diz. Mas o processo de definição de 'quem eu sou' segue pela vida e o que veio das palavras dos 'grandes' nos primeiros anos, vai sendo modificado para formar um jeito próprio de ser.
Entretanto, algumas frases que ouvimos a nosso respeito dos pais, professores, ou de outras referências importantes, permanecem indeléveis. Entre elas há as que nos ajudam, outras atrapalham.
Claro que os educadores jamais poderão ter controle sobre tudo que dizem, e menos ainda sobre o que ficará gravado e terá o caráter de 'verdade'. Mas é desejável ter o cuidado de evitar afirmações categóricas, repetidas e fixas sobre as possibilidades de alguém. Estas, quando 'colam', são difíceis de serem apagadas ou transformadas em traços de personalidade favoráveis. Tornam-se restritoras de possibilidades e podem até se realizar como uma profecia nefasta. É o que descreve perfeitamente nosso leitor: sempre que está à voltas com cálculos, voltam as tais palavras...
A afirmação a respeito das aptidões são bastante comuns por parte de professores, familiares... Os irmãos são comparados: 'O caçula tem jeito para música, já o mais velho tem facilidade em ciências'. É bom quando, apesar disso, abre-se espaço para que o caçula possa também optar por ciências e o mais velho por música.

Helena Grinover e Marcia Arantes
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