domingo, 30 de dezembro de 2012

Festas e Ferias


Aos nossos leitores
Boas Festas e 
Feliz 2013!
Retomaremos nossa comunicação com vocês na segunda quinzena de janeiro. Até lá.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Hora de dormir



‘Lá em casa ninguém dorme cedo. O Rafael pega no sono lá pelas dez e meia, onze. É incrível, de manhã, às seis e pouco, já acorda  no 'maior pique'. Ele é bem agitado, fala sem parar...' Estas são as palavras da mãe de um menino de três anos de idade.
A hora de dormir costuma ser um desafio para os pais. Nos momentos em que mais gostariam de relaxar, devem colocar os pequenos na cama, o que costuma causar um adiamento do repouso de ambos. É sabido que as horas de sono são uma condição extremamente relevante para as crianças manterem a saúde física e mental. É bem possível que o Rafael esteja assim exaltado por falta de sono. Por outro lado, os adultos também precisam desfrutar sossegados de um horário dedicado aos seus interesses.
Estabelecer esta diferença entre as gerações, dá aos mais novos um importante limite organizador. Entretanto, nem sempre eles o aceitam de bom grado. Podem  necessitar muito da firmeza e da calma dos mais velhos para ultrapassar as dificuldades. 
O adormecer é um momento de separação que afasta das pessoas queridas e leva à despedida dos brinquedos, da luz, do barulho... Isso tudo pode angustiar os pequenos que procuram então postergar mais e mais o desligamento.
Ajudá-los a ser uma criança tranquila é ensiná-los a deixar a vigília para ganhar o descanso. A capacidade de suportar essa 'solidão' que o sono exige, só as fortalecerá!

Helena Grinover e Marcia Arantes
Caso note um sofrimento persistente em seu filho, marque um horário para conversar


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terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Não quero!



















O papai parecia estar gostando. A filhinha , de dois anos, nem tanto... Ele fazia uma brincadeira em que ameaçava  pegar a criança com um fantoche nas mãos, rindo, e a menina, assustada, dizia 'não!', 'não quero!', 'para!', mas o pai insistia... Ela usou todos os recursos de vocabulário aos quais tinha acesso, até que, desesperada, começou a chorar.
Em várias situações, observamos que os apelos das crianças são desconsiderados, como se o adulto não 'acreditasse' na sua recusa, ou como se entendesse  que  a negativa faz parte do jogo. 'As vezes, há cenas constrangedoras, nas quais a linha divisória entre a atitude amorosa e o molestamento fica indefinida. 
Os momentos de brincadeira, nos quais há o cuidado de preservar o prazer dos participantes, são preciosos para a criança compreender as diferenças, nem sempre claras, entre brincar e agredir. Se puderem ver sua recusa ouvida, aceita e respeitada, os pequenos se sentirão protegidos e poderão ir até onde aguentam, se aventurar, experimentar novas situações.
Ultrapassar o limite da criança em ocasiões em que ela tem todo o direito de exercer essa escolha, retira dela a  oportunidade de suportar e acolher o 'não' que ela própria irá escutar  dos outros.

Marcia Arantes 

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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

É medo de que?

Uma leitora comentou o post 'Medo necessário' e nos pediu para escrever mais sobre o tema.
Vejamos: Eduardo tem nove sobrinhos com idades que vão dos dois aos dez anos. Por ocasião do Natal decidiu fazer-lhes uma surpresa. Vestiu-se de Papai Noel e surgiu no meio da festa de família emitindo um sonoro hohoho! O pânico tomou conta dos pequeninos e foi uma choradeira geral...
O medo é uma emoção que, quando surge a partir de ameaças reais como o abandono, o ataque, o acidente, protege o individuo. Pode, entretanto, ser gerado por criações imaginárias. Na imaginação infantil, as ameaças destruidoras são representadas por figuras clássicas como a bruxa, o lobo mau, o 'homem do saco'. São muitas as histórias narrando as peripécias para vencer o risco de ser devorado, roubado dos pais, preso, deixado à própria sorte, desprovido de suas forças...
O tio Eduardo, que na realidade não assusta ninguém, quando 'escondido' atrás do papai noel transformou- se numa criatura temível. Nesse processo há a participação das crianças por meio de uma operação mental bem ativa. Como se estivessem sonhando de olhos abertos, enxergam e identificam na figura que estão vendo suas imagens fictícias de personagens aterrorizadores. Fazem uma espécie de projeção, tal qual vemos na tela do cinema.  
Nesses momentos, em qualquer idade que estejam, precisam ser apoiadas, ter o reconhecimento da verdade do sentimento que experimentam, sem que se exija rapidamente sua superação.
Apenas a ausência total de medo, ou uma quantidade excessiva dele que impeça a criança de tirar proveito da vida corriqueira, devem levar pais e educadores a tomar outras providências.

Helena Grinover e Marcia Arantes

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terça-feira, 27 de novembro de 2012

Colaboração


























Na praia, descontraídos, dois meninos, de aproximadamente 7 anos, jogam frescobol. Entre risadas e frases dispersas, um diz ao outro, caçoando: 'Hahá, essa você não pegou!..' enquanto o amigo corria para pegar a bolinha lançada bem longe. A cena se repetiu alternando a vez de quem não pegava a bola, até que um falou: 'Esse jogo está chato!'. Chamou nossa atenção o fato de que comemoravam o erro do companheiro,  o regozijo era sobre a falha do outro, e não pelo acerto da jogada. Claro que muito pouco jogo aconteceu...

O frescobol é uma brincadeira que consiste em rebater a bolinha lançada pelo parceiro, sem deixá-la cair no chão. Não há quadra delimitada, nem pontuação individual por acertos. O objetivo comum é manter a bola no ar. Para isso, cada jogador deve remetê-la ao outro, para que 'acerte' e devolva. A grande maioria dos jogos se baseia no oposto: fazer o adversário errar. Essa brincadeira propõe, portanto, uma mudança de parâmetro que os nossos menininhos não chegaram a perceber...

Os jogos oferecem situações onde se exerce a competição e a vontade de ser melhor que o outro. Entretanto, esse exercício deve ir até o limite das regras estabelecidas. Ultrapassá-las é invalidar a disputa esportiva.  Nesse sentido, jogar é uma atividade que tem função social  e educativa importantes. Permite dar vazão às tendências humanas como a agressividade, o orgulho, a vingança, sem que haja violência e destruição. Não é o que temos visto, tristemente, acontecer nos estádios...

Os nossos protagonistas apenas buscaram satisfazer os desejos de competir e vencer, mas com isso impossibilitaram a realização da brincadeira, pois a bolinha foi quase sempre parar no chão. Não cometeram nenhuma violência física, mas o jogo ficou 'chato'. Ficaria interessante se tivessem entendido que o mérito nessa diversão era outro: desenvolver cada vez mais a habilidade de pegar a bola e possibilitar, por meio da sua jogada, o  mesmo para o parceiro.

A cena nos faz pensar no papel importante que teria um adulto que ajudasse as crianças a perceberem o prazer de se desafiar e se aprimorar, sem precisar fazer alguém perder.

O desenvolvimento da capacidade de colaborar sustenta  a 'bola no ar' nos 'jogos da vida': no trabalho, no amor, nas amizades.

Marcia Arantes e Helena Grinover



terça-feira, 20 de novembro de 2012

Censura ?





















Em  uma sala de cinema estão presentes homens, mulheres e crianças de todas as idades. A senhora madura, não consegue conter suspiros de prazer ou comentários aflitos. Um garotinho de cerca de quatro anos se agita, fala com a mãe, esconde o rosto, volta a olhar. O filme narra uma história de amor, mostra corpos nus se entrelaçando, vampiros ameaçadores, lobos enormes, ferozes, em lutas sangrentas que estraçalham e despedaçam os indivíduos. A recomendação da idade mínima para assistir essa ficção é doze anos!
Há, na nossa  sociedade, uma mudança em curso nos últimos anos. Crianças e adultos compartilham cada vez mais os mesmos espaços. Estão juntos nos restaurantes, nos shopping centers, nos hotéis, na sala de visitas até altas horas. Esta proximidade tem vários efeitos benéficos, mas pode mergulhar as crianças em situações que ultrapassam as fronteiras da condição infantil.
Quando soma-se a isso um marketing extremamente invasor e eficiente, o consumo dos  produtos audiovisuais fica difícil de controlar. Os personagens estão em todas as telas, no rádio, na banca de jornal, no painel publicitário do ônibus, na capa dos cadernos.
Quem consegue se opor a tamanha enxurrada que gera desejos de participar, de estar por dentro de tudo? Especialmente nesse momento, os pequenos têm direito à proteção e precisam ser limitados pelos mais experientes.
A indicação de idades mínimas pelos órgãos públicos deveria levar os adultos a balizar seu posicionamento pessoal na proibição de filmes, novelas televisivas, jogos eletrônicos, etc. Embora seja difícil se situar nessa maré de ofertas, pais e educadores devem firmar suas convicções e não permitir o que lhes pareça inadequado.  Mostrando um critério, fundamentando opiniões próprias, transmitirão aos filhos e alunos a noção de que é possível haver escolha e não é necessário 'seguir a multidão'...
Crianças que não encontram essa firmeza, tendem a ficar perdidas num mingau mole e disforme que dificulta a constituição da  individualidade. Podem ainda vir a ter uma atitude apática diante da vida, adotando   um indiferente 'vale tudo'.

Helena Grinover e Marcia Arantes


vivazpsicologia.blogspot.com.br


terça-feira, 13 de novembro de 2012

Quem é mais sabido?


















Era uma vez... dois irmãos, o André e o Tiago. Eles brincavam e brigavam juntos, como todos os irmãos. Ocorre que o André havia nascido três anos antes do Tiago. Quando ele estava aprendendo a ler, o Tiago mal rabiscava o papel. Quando um ainda usava fraldas, o outro se orgulhava de ir ao banheiro sozinho; quando um tinha medo do escuro, o outro já 'tirava de letra' dormir com a luz apagada. O André se vangloriava: 'eu já sei, o Tiago não sabe, né mãe?'. O Tiago, por sua vez, dizia: 'eu não sei desenhar, o André sabe!'
 Durante o período do desenvolvimento, em que as mudanças ocorrem rapidamente, André estará sempre à frente em certas conquistas. O irmão mais novo o olhará com admiração, desejará imitá-lo, o tomará como modelo. Os pais, ao elogiarem e estimularem os avanços do primeiro filho, colaboram para isso.
É de se esperar que o caçula sinta-se frustrado. Alguns desses desempenhos estão realmente além de suas possibilidades e ele o percebe com clareza. O primogênito, por outro lado, também terá que lidar com sentimentos desagradáveis tais como: a cobrança de responsabilidade, a expectativa de que seja o 'correto', a culpa por se sobrepujar ao irmão...
No entanto, o que ambos não conseguem perceber, é que isso se deve a uma diferença de idade,  que se diluirá com o tempo, e não estabelece as qualidades de cada um . É interessante que professores e familiares possam voltar os olhos para crianças como André e Tiago, que mantém insistentemente a  ideia de haver um mais sabido. O menor pode estar com medo de se arriscar,  de fracassar, então se poupa e se conforma com o lugar de menos sabido. O mais velho, não tão confiante quanto quer aparentar, pode estar precisando se reassegurar de suas capacidades e devido a isso usa sempre o mais novo como elemento de comparação.
Pais e educadores ajudam muito quando estimulam as crianças a não se fixarem nesse conceito sobre si mesma. Os mais velhos não são sempre os mais sabidos, nem os mais novos os que invariavelmente 'não conseguem'.

Marcia Arantes e Helena Grinover


terça-feira, 6 de novembro de 2012

Medo necessário




















Henrique tem quatro anos e meio e sua irmãzinha seis meses. Houve um período, após o nascimento da menina, em que o garoto ficou inquieto, mais chorão e sem paciência. Passou também a reter a urina, ficava bastante tempo sem ir ao banheiro, acabava molhando as calças e aí se mostrava muito angustiado. Certo dia, diante de uma lanchonete, aproximou-se dele um homem vestido de dragão, com uma fantasia enorme. O garoto ficou apavorado e daí em diante passou a ter medo destas grandes figuras que se movimentam por meio de um ser humano no seu interior. A mãe observa, entretanto, que depois disso ele recuperou certa calma, voltou a ir ao banheiro normalmente...
O nascimento de irmãos, especialmente na faixa etária de nosso protagonista, propicia uma série de dúvidas e temores que surgem quando a criança realiza que o nenê saiu de dentro do corpo da mãe. As questões giram em torno das diferenças sexuais entre homens e mulheres, das separações, evocam os mistérios da vida e, consequentemente, da morte. Os pequenos se perguntam sobre os desejos da mamãe e o papel do papai na família. Portanto, pode-se esperar que apareçam essas angustias vagas que causam mudanças visíveis e incompreensíveis, aquelas que os adultos costumam dizer que são por ciúmes do irmãozinho, pois claramente estão ligadas à chegada dele. 
Henrique não conseguia expressar com pensamentos e palavras sua ansiedade que se traduzia em perturbações generalizadas e na retenção da urina. Quando passou a ter medo dos dragões e personagens afins, concentrou os sentimentos ameaçadores nestas figuras. Agora, bastava evitar esses monstros! 
Podemos levantar a hipótese de que os medos `curaram´ a angustia difusa que o molestava. 
Lembremos que há seculos as histórias introduzem figuras assustadoras na imaginação das crianças. Elas têm a função de cercar as  inevitáveis ansiedades infantis. Mantendo-as presas a esses personagens fantásticos, ajudam os pequenos a terem um bem estar emocional. 
Os pais, preocupados em diminuir o sofrimento dos filhos ou torná-los corajosos, buscam convencê-los de que não estão correndo perigo, `essas criaturas não existem´ ou `bonecos não fazem nada´. Mas convém dar a eles um tempo, deixar que encontrem soluções próprias para seus temores.  Podem ser medos necessários...

Helena Grinover e Marcia Arantes












terça-feira, 30 de outubro de 2012

O drama da escolha




















É o dia do quinto aniversário da Nanda, e ela ganha um belo dinheiro de presente dos avós. 'É para você comprar o que quiser!', diz a avó entusiasmada. No dia seguinte, a família vai à loja, uma daquelas imensas, cheia de brinquedos, e os pais dizem para a menina: 'Pode escolher!'. Ela fica parada, com os olhos fixos, a mão na boca. Os pais estimulam: 'Vai, Nanda, pode ser o que você quiser!' A pequena continua imóvel, os minutos passam e ela começa a dar sinais de incômodo, até cair em pranto. O que teria acontecido? Supunha-se que seria um momento maravilhoso para a menina...
O dinheiro tem, para a criança pequena, um valor mágico. É aquilo que possibilita tudo, que brota de algum lugar misterioso e vago. Aprender a lidar com esse valor poderoso demanda operações mentais complexas, sendo a mais óbvia,  poder fazer  cálculos. Mas não foi esse o problema que a pequena Nanda teve na loja. Diante da situação em que ela podia 'qualquer coisa', não conseguiu fazer uma escolha. O presente assumiu feições gigantescas e o sentimento não foi de alegria...
Para escolher, precisamos definir `um´ desejo e decidir que esse é maior do que outros. Essa definição exige conhecimento de si e capacidade de abrir mão, de ficar com `um´e perder os demais, colocando um limite nas alternativas. 
Diante de frases como 'você pode escolher o que quiser' desperta-se a expectativa de uma satisfação plena;  parece que nada vai conter essa inundação de possibilidades onde o indivíduo se vê diluído, sem contorno. Contrariamente ao que imaginamos, muita liberdade  traz angustia e não prazer. Esse é um dos  efeitos da tão falada `falta de limites´.
O adulto ajuda a criança quando delimita para ela o campo de escolha. Teria sido melhor para a Nanda que os pais tivessem lhe apresentado três ou quatro opções. Mesmo que ela as recusasse, estas lhe dariam um chão sobre o qual pisar,  um caminho para encontrar o seu desejo.

Marcia Arantes e Helena Grinover



terça-feira, 23 de outubro de 2012

Nem parece meu filho...

 



Renato tem dez anos e frequentemente passa alguns dias em casa de amigos ou parentes. Invariavelmente seus pais, ao receberem o filho de volta, ouvem apreciações que em nada combinam com o que eles veem na convivência com o menino. 'Ele é tão meigo, extrovertido, faz  piadas...' comentam. Parece que estão lhes falando de outra criança.
É bastante comum esse desencontro entre o que se revela para os pais e o que aparece em outros lugares, com pessoas diferentes. Muitas vezes essa discrepância causa certo desconforto: ´porque lá em casa não é assim?'
Cada individuo, ao se encontrar com um novo semelhante, vê nele aspectos com os quais constrói uma imagem. A pessoa aprecia, desgosta, aprova, ama, detesta, em função do ângulo em que olha. Ou seja, toda vez que a criança se relaciona com pessoas diferentes, ela recebe o retorno de uma imagem de si mesma que depende  do recorte que esses novos olhos privilegiam nela, do novo 'ponto de vista'.
O fenômeno do filho que parece ser 'outro' se explica pela imagem diferente que os 'outros' podem oferecer a ele e pelos efeitos que isso tem. Aquilo que é visto como parte de sua nova imagem, tende a ser também apropriado pela criança que deseja ampliar e mudar o conceito que tem de si, ou seja, ela quer ser olhada de outra forma. 
Os pequenos são mais susceptíveis a essas novas interações e assim incorporam outras faces a sua individualidade. Daí a riqueza e as surpresas que esses afastamentos temporários da família propiciam ao longo do desenvolvimento. 
Aos pais podemos dizer que essa é a única via pela qual seus filhos podem formar a própria personalidade, ou seja, se espelhando primordialmente em quem cuidou deles quando pequeninos, para depois poderem absorver outras influências. Renato, ao se apresentar diferentemente quando está longe do olhar dos pais,  ilustra a liberdade que tem de constituir alternativas para sua maneira de ser, sem perder o que recebeu deles para se estruturar.

Helena Grinover e Marcia Arantes










terça-feira, 16 de outubro de 2012

As profecias se realizam...





















'Passei a vida acreditando que não tinha habilidade com as mãos. Foi o que ouvi por toda a infância. Estou absolutamente surpresa com o que fiz!!' Esse é o comentário entusiasmado de uma mulher de 45 anos, ao final de uma boa aula de desenho...
Nossa experiência clínica mostra crianças com baixo rendimento escolar, adultos com sentimentos de inferioridade, inibições, sofrimentos na vida amorosa e profissional, ligados a depoimentos como esse. As pessoas ficam marcadas por expectativas, pelas frases repetidas, pela maneira como são vistas por pais e educadores.
A respeito desse assunto, chamou a nossa atenção um artigo publicado pela Folha de São Paulo em 09 /10, no caderno 'equilíbrio', com título bastante sugestivo: "A crença que vira sentença". A jornalista relata  o experimento levado a cabo em 1964 na Califórnia, retomado em 2012, onde os pesquisadores aplicaram um suposto 'teste de Harvard' nos alunos do ensino fundamental de uma escola. Após a avaliação forneceram aos professores uma  falsa lista composta por nomes sorteados entre os que haviam realizado o teste. Disseram aos mestres que esses eram seus pupilos que tiveram os melhores resultados, os que tinham maior nível de inteligencia.  Um ano depois, repetiram o teste e observaram que os indivíduos que faziam parte da falsa lista conseguiram um desempenho 4% acima dos demais. 
Os pesquisadores concluíram que a crença do professor faz diferença no aproveitamento das crianças. Ele trata de uma maneira o aluno que considera 'inteligente' e de outra, bem diferente, o que considera menos 'inteligente', gerando assim efeitos  significativos no desempenho de ambos. Aqueles que o mestre acredita, antes mesmo de conhecê-los, que devem ser os 'melhores da classe', rendem de fato mais do que aqueles cuja expectativa é de que sejam os 'piores da sala'.
Esses resultados da pesquisa confirmam o que observamos na clínica e na vida.
Rever essas crenças fixas, ou tomar consciência delas para mudar as atitudes e as palavras, pode ajudar   pais, professores e alunos.

Marcia Arantes e Helena Grinover



terça-feira, 9 de outubro de 2012

É meu, ou é nosso?


















Beatriz está fazendo nove anos e a família preparou  um lanche para os amigos onde a diversão é cada um montar o próprio sanduíche. Sobre a mesa há várias travessas com os ingredientes e talheres para que as crianças se sirvam. Surpreendentemente, muitas delas avançam, devorando  com as mãos os recheios de sua preferência, sem a mínima preocupação em montar os lanches ou utilizar os apetrechos adequados.
Nesta idade, uma criança já deveria ter aprendido que os talheres são para proteger o alimento que todos vão ingerir e que a divisão dos quitutes numa festa não privilegia alguns convidados...
Adultos, frequentemente, se  questionam diante de comportamentos individualistas dos jovens. Os mais velhos, horrorizados, dizem: 'no meu tempo não era assim...' O que se passa?
Na sociedade contemporânea, a vida dos cidadãos é cada vez mais mapeada por trajetórias individuais. A realização pessoal depende em alto grau do que o sujeito conquista por conta própria, com poucas contribuições das organizações e instituições sociais. Esse movimento, acelerado nas últimas décadas, amplia e valoriza o espaço privado em detrimento do coletivo. Estudar, trabalhar, cuidar dos filhos, demanda enormes esforços e recursos individuais ou familiares. Trava-se uma crescente 'luta pela vida' na qual é necessário vencer os que disputam a 'sua' posição e o lugar que cada 'um' conquista precisa ser defendido o tempo todo.
A ação que predomina, dentro do campo social estruturado desta maneira, é mais orientada por uma avidez para conseguir o que se quer, do que por uma disposição para participar e compartilhar.
O efeito disto pode ser observado nas crianças em situações como as do nosso evento de aniversário.
A noção de que o coletivo pertence a todos e de que destruí-lo empobrece também  aquele que o destrói,  parece estar longe da experiência de vida dos mais novos. É um desafio para pais e educadores ajudá-los a adquirir essa consciência. Para isso, vão precisar recuperá-la neles mesmos...

Helena Grinover e Marcia Arantes

vivazpsicologia.blogspot.com.br

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Podemos fazer só por prazer?


















'Acho importante que meu filho faça o que gosta. Por que ficar numa atividade que o incomoda?' 'Vou tirar meu filho do judô, ele tem reclamado bastante do professor'.  'Não sei se deixo minha filha continuar a natação, ela se queixa tanto na hora de levantar e se trocar!

Essas frases nos fazem pensar... Nos dias atuais vivemos uma super valorização do prazer, das satisfações imediatas e a ansiedade dos pais com essas questões se mostra mais evidente. Qualquer sinal de insatisfação nos pequenos é logo notado . 
Quando os adultos se afligem muito rapidamente com essas 'infelicidades', podem impedir conquistas importantes.
Sabemos que os prazeres obtidos de imediato não colaboram para o desenvolvimento da capacidade de modificar a realidade, ou a si mesmo, para conseguir o que é desejado. Receber satisfação como o resultado da simples manifestação da vontade, atende mais às necessidades do bebezinho. Para ele, o mundo deve funcionar primordialmente assim: 'eu quis, aconteceu'.  Mas, ao longo da vida, de acordo com suas possibilidades, a criança precisa ser capaz de conter os anseios e fazer transformações para chegar ao que almeja. A aquisição de conhecimento, habilidades e tenacidade para realização de trabalhos, têm por base a tolerância de suportar certas frustrações. Essa é uma das condições  da perseverança, que conduz a um prazer conquistado e seguro.
Podemos pensar que, mesmo quando o professor não corresponde totalmente às expectativas do aluno, a atividade é difícil e há momentos maçantes, ou que 'dá preguiça' na hora de ir à natação, pode ser promissor evitar decisões rápidas, valorizando demais as queixas.  Cabe aos pais e educadores, juntamente com as crianças, avaliar quando e quanto a falta do prazer imediato deve ser suportada para que elas possam obter prazer das vitórias sobre si mesmas...

Marcia Arantes e Helena Grinover

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terça-feira, 25 de setembro de 2012

'Ideal Olímpico' para quem?



















Mariana, com onze anos de idade, já tem uma opinião formada sobre si mesma: ' não sou boa de esporte'.
Nestes tempos que antecedem as Olimpíadas no nosso país, observamos um crescimento nas espectativas de pais, educadores e professores de esporte. Querem muito que surjam entre os seus filhos e alunos os futuros participantes do certame internacional!
Lembremos que os ideais individuais nascem na infância. No início, os bebezinhos precisam ver a aprovação, a alegria e o orgulho nos olhos dos seus familiares para que cresçam confiantes e fortes. Quando crianças, pouco a pouco vão se descolando dessa necessidade de corresponder aos desejos dos outros. Mas o processo é longo e os apelos vindos das pessoas importantes para elas têm ainda bastante influência. 
Esses ideais são como um motor que motiva, impulsiona para a realização dos objetivos. Porém, quando ficam muito distantes do que a criança consegue alcançar na realidade, funcionam ao contrário, geram frustração e terminam causando desinteresse.
A pressão para estar acima da média, ser campeão, medalhista, 'sarado', amplia-se fortemente nas empresas, escolas e clubes. Torneios para esportistas de quatro, cinco anos de idade incluem cerimonias com entrega de brilhantes medalhas de 'ouro'. Sem dúvida, tal promoção vai aumentar as chances de indivíduos  especialmente competitivos no futuro. Mas, quantos se perderão pelo caminho?  Quantos abandonarão a prática esportiva por causa de conclusões radicais, iguais às da Mariana? 
É papel dos educadores manter iluminado também o ideal 'não olímpico' do esporte, movido principalmente pelo prazer, o companheirismo, o desenvolvimento corporal próprio de cada criança.

Helena Grinover e Marcia Arantes

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terça-feira, 18 de setembro de 2012

Que pesadelo!


Soninha, que tem quatro anos, teve um terrível pesadelo à noite. Um bicho muito feio e grande corria atrás dela tentando mordê-la. Ela gritava, procurava escapar, até que acordou chorando, e se deparou com a mãe que vinha acalmá-la. Muito brava e assustada, perguntou: 'porque você  não foi lá para me ajudar?'

Entre 3 e 6 anos aproximadamente, é comum as crianças terem pesadelos com temas  relacionados a situações de  perseguições, devoramentos, desaparecimentos, ataques, diante das quais ficam incapazes de se proteger.
Os sonhos são uma produção psíquica que nos permite continuar a dormir enquanto a cabeça prossegue ativa, buscando digerir as experiências vividas. Quando a angustia que surge no sonho é grande, ele perde sua função de manter o sono e acordamos.
 Uma criança como a do nosso exemplo, não é capaz ainda de fazer completamente a distinção entre o que pertence à realidade e o que é sonho. O crescimento lhe permitirá reconhecer quando se trata de um produto do seu mundo interno.
Muitas vezes, para acalmar os filhos, os pais tentam separar o pesadelo do resto da vida, diminuindo a importância do sonho: 'é bobagem, não é de verdade!' . Enganam-se. Soninha, quando corre do bicho, mostra que está enfrentando ameaças  diante das quais se sente enfraquecida. Essas situações ameaçadoras podem não estar ocorrendo 'na realidade'. Entretanto, são verdadeiras para a criança que, especialmente nessa fase da vida, experimenta rivalidades, sentimentos de exclusão e desejos de excluir. Está em plena luta por seu lugar no mundo, pelo amor dos pais.
 Conversar sobre esses bichos, deixá-la falar sobre eles, pensar o que poderia fazer para se proteger, são recursos que podem ajudá-la. Com o tempo, encontrará maneiras de enfrentar as ameaças, que não lhe 'tirem o sono'.

Marcia Arantes e Helena Grinover

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terça-feira, 11 de setembro de 2012

Criança não namora!



















Assim se inicia uma conversa entre a menina de oito anos e sua mãe: 'Mãe, sabia que a Rita namora o Edu?' .Assustada e curiosa a mãe pergunta: 'O que eles fazem, filha? '. 'Ficam juntos, ué!'. ' Mas juntos como?'  'Ah, mãe, você sabe'. 'Não sei, como é? Beijam, beijam na boca?' 'Sei lá ', diz a criança com um gesto de quem perdeu a paciência e se distancia calada.

Na faixa de sete a onze ou doze, há ensaios e maior abertura para amizades, mas os  laços amorosos mais importantes ainda permanecem atados ao grupo familiar.
Namoro é o que acontece após a puberdade, quando o desejo de amor e carinho se concentra fortemente nas figuras de fora da família.

Seria interessante que o dito 'namoro' das crianças pudesse ser visto por seus pais e educadores como uma atividade completamente diferente daquela dos adolescentes e adultos. Trata-se, na infância, de relações movidas pela curiosidade, pelo desejo de imitar os mais velhos. As preferências afetivas são instáveis e periféricas. 

Os educadores, ao atribuírem precocemente uma etapa sexual à criança, a afastam daquilo que é próprio da idade, como o aprendizado escolar, o companheirismo nas brincadeiras, o convívio despreocupado e espontâneo entre meninos e meninas.

A garota da nossa história fala de 'namoro' para ver o que sua mãe comenta sobre o assunto. A mãe, talvez assustada com a própria interpretação dos fatos, se expressa como quem está diante de um relacionamento de adolescentes.  Deixa, dessa maneira, a menina confusa e inibida com a dificuldade de explicar o que está se passando. Cabe aos adultos apontar a diferença entre brincar e namorar, imitar os mais velhos, ser criança e ser adolescente. A Rita e o Edu 'ficam juntos' na hora do lanche, depois correm com os amigos pelo pátio...

terça-feira, 4 de setembro de 2012

A privacidade da criança


Julia, educadora de uma creche para bebês, relata que fica aflita quando vai trocar Ana, de sete meses, porque assim que abre as fraldas, a bebezinha coloca a mão nos genitais. Julia tem procurado terminar tudo rapidamente para não dar tempo a Ana de se tocar, mas tem dúvidas a respeito dessa conduta...
Natália está com seis anos. A mãe observa que ela fica muito tempo diante da televisão, em estado quase letárgico, com as mãos dentro da roupa. O que fazer?
Uma grande parte dos educadores está consciente, nos dias de hoje, de que a manipulação dos genitais pela criança não deve ser coibida, devido à  importância dessa estimulação para o desenvolvimento psíquico e sexual.
O uso do próprio corpo como fonte de sensações deve variar em função das idades e do ambiente social. Ana pode ficar algum tempo sem as fraldas para fazer descobertas, enquanto Natália precisa ser orientada a deixar de mexer dentro da roupa quando estiver com outras pessoas na sala.
O desafio para os educadores é encontrar os limites para esses comportamentos e ao mesmo tempo permitir privacidade, de maneira que cada criança desenvolva formas particulares e únicas de obter prazer. Parece-nos importante, para que isso ocorra, que a intromissão dos adultos se restrinja exclusivamente a indicar o que não deve ser feito. É desnecessário, por exemplo, dizer aos pequenos: 'faça isso no seu quarto', ou 'no banheiro'...
Descobrir os caminhos e os lugares para a exploração do corpo em 'segredo' também faz parte da construção da sexualidade.

Helena Grinover e Marcia Arantes

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terça-feira, 28 de agosto de 2012

Incômodos palavrões.




















'Meu filho Felipe, de quatro anos, brinca no playgroud com crianças bem mais velhas e aprende umas coisas inadequadas para sua idade.  Agora deu para falar palavrões terríveis, e pior, fala na frente das pessoas. Fico brava, envergonhada, a situação só piora'.
As crianças não têm nenhuma condição de saber o que estão dizendo quando usam palavrões que remetem à sexualidade madura. Os adultos, com toda razão, ficam incomodados diante desses pequenos que se referem à um mundo de experiências e conhecimentos do qual deveriam estar excluidos. Mas essa é a questão: eles querem se incluir!
Repetir o que dizem os outros é uma maneira de se inserir própria dos humanos. Toda a linguagem é adquirida por meio da repetição. No início, é como se as palavras fossem ocas, sem significação, aos poucos elas vão ganhando conteúdo.
Quando Felipe pronuncia os palavrões está procurando decifrar seus significados e assim participar do grupo dos maiores. Percebe que eles estão 'por dentro' de algo que ele não entende e isso o atrai profundamente...
Um movimento semelhante é feito com assuntos que a família, por exemplo, considera impróprios para as crianças. São frequentemente mencionados por elas, que não sabem do que se trata, mas sabem como procurar o que há por trás disso que é tão reservado. Causam bastante incômodo!
A curiosidade e o desejo de participação são importantes, não devem ser esmagados com reações violentas.  Entretanto, dizer palavrões constrangedores é um comportamento que merece limites.

Helena Grinover e Marcia Arantes

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terça-feira, 21 de agosto de 2012

Quem dá a ultima palavra?

Nos últimos tempos, a mãe de Marcelo tem se defrontado com uma negociação constante. Sempre que pede a ele para fazer algo que o desagrada, o garoto resiste muito. Quando finalmente aceita, diz o segunite: tá, mas eu que faço!
A condição aparece em várias  situações: 'eu que desligo a televisão para ir tomar banho', 'eu que tranco a porta na hora de sair', 'eu que empurro o carrinho no supermercado, 'eu que pego o shampoo' e por aí vai...
Quando não é possível deixar que Marcelo fique com ultima palavra, ou seja suas condições não são aceitas, ele fica extremamente frustrado, bravo e se põe a chorar. O que estaria acontecendo?
O  menino está com três anos, já construiu a idéia de que é alguém nesse mundo, mas ter que abrir mão dos seus desejos lhe parece quase como deixar de existir. Torna-se insuportável, nesses momentos, receber ordens sem ter outra alternativa que não seja a de obedecer e ponto final. Precisa colocar seu 'eu' em primeiro lugar, para depois poder acatar o desejo dos outros.
Seria hora de fazer valer a palavra dos adultos? O respeito à autoridade estaria em cheque? Visto que a insistência de Marcelo é grande, assim como a dor, ao ter que se submeter, pensamos que é hora de dar a ele algum espaço para o exercício do poder. O garotinho está cultivando um brotinho de personalidade que, como semente que acaba de despontar, precisa de sol e ar para se fortalecer.
Convém  fazer como sua mãe tem feito: quando for possível, permitir que ele dê a última palavra. Caso contrário é ela quem define os limites, protegendo e podando a 'plantinha'. As duas atitudes são importantes!

Helena Grinover e Marcia Arantes



terça-feira, 14 de agosto de 2012

A história da chupeta.


















Lucinha estava com quatro anos e carregava sua chupeta de estimação para todo lado. Isso constrangia bastante a mãe, que já havia sido alertada por várias pessoas: educadores, dentista, amigos. Já tentara de muitas maneiras fazê-la largar: promessas, ameaças, comparações... tudo em vão. Até que um dia, a caminho da escola, atravessando uma ponte sobre o rio, a mãe  sugeriu a Lucia que  jogasse a chupeta para o rio levá-la. A menina concordou e combinaram que no dia seguinte fariam isso. Proposta ousada, pois não haveria retorno... Assim foi feito, e como das outras vezes, a garotinha pediu de volta o objeto querido. Então a mãe explicou que a chupeta não poderia voltar, mas propôs a Lucia que  construíssem um barquinho de papel e o jogassem no rio para ele fosse encontrar-se com a chupeta. A partir de então, Lucinha colocou vários barquinhos na água, até que um dia 'se esqueceu' da chupeta...
Sabemos que muitos pais enfrentam a dificuldade de ajudar seus filhos a se desprenderem de objetos, ou de atitudes que se fixam insistentemente. A substituição dessas ligações deve ocorrer como um barquinho que desliza na água, passando de um lugar para o outro. Os adultos que acompanham esses movimentos de passagem são testemunhas das novas aquisições que surgem quando a criança larga a chupeta, deixa a mamadeira, para de chupar o dedo. Aparecem desenvolvimentos na fala, nas brincadeiras, nos interesses por companheiros, na coordenação motora.
 A mãe do nosso exemplo teve uma ideia bastante criativa: forneceu o recurso para que a pequena pudesse se soltar do objeto ao qual estava atada. A menina ficava um bom tempo do dia parada, praticando o chupeteio com o olhar meio perdido, desligada do mundo ao seu redor. Ela ajudou a garota a se divertir com outro prazer, o de fazer barquinhos irem pelo rio e imaginar histórias.
Esperamos que Lucia continue encontrando  e usando  recursos que lhe permitam circular por águas antes não navegadas...

Marcia Arantes e Helena Grinover





sábado, 4 de agosto de 2012

Meninos e bonecas...



Antônio tem dois anos e gosta muito de brincar com uma bonequinha de pano que era de sua irmã. Abre as pernas da boneca, diz que ela fez xixí, limpa, troca as fraldas, dá a chupeta...Sorte dele que herdou os brinquedos da  menina.
A curiosidade em relação ao corpo se inicia com a observação e exploração dos seus orifícios. O primeiro é a boca, seguido por aqueles da eliminação de urina e fezes. Depois, vêm os genitais e, juntamente com essa etapa da pesquisa corporal, as crianças se colocam grandes questões sobre a vida: de onde eu vim, quem sou eu ou quem são meus pais, para onde vou.
Todos nós experimentamos certo deslumbramento com a investigação do universo e de nossas origens. Assim se atiça um trabalho de busca que acompanha os humanos ao longo dos anos, movidos pelo desejo de saber. A aprendizagem, tão relevante no aproveitamento escolar, está diretamente ligada a essa vontade de conhecer.
Graças aos brinquedos, as crianças têm acesso a uma parte do mundo que de outra maneira seria impossível manipular e explorar. Quando Antonio brinca com a boneca, um 'pequeno ser semelhante', pode fazer livremente, no campo da fantasia, tudo o que não convém que faça na realidade, ou seja, no corpo das pessoas e dele mesmo. 
É importante que os pequeninos meninos e meninas possam ter bonecos, bonecas, mamadeiras, chupetas, para que reproduzam os cuidados que recebem dos adultos e se encantem com as cenas e pensamentos que o corpo humano lhes desperta.

Helena Grinover e Marcia Arantes





terça-feira, 31 de julho de 2012

O que fazer com o tédio dos filhos?

'Mãe, posso ver televisão?', pergunta Tati,  menininha de 10 anos, em tom de aborrecimento. A mãe, com convicção, responde: 'Não, você já viu mais de 1 hora de TV hoje'. 'Mas eu não tenho nada prá fazer!', retruca a garota lamuriosa. E a mãe, voltando ao que estava fazendo, diz: 'Filha, o tédio faz parte da vida!'. Após alguns minutos, Tati reencontra uns bonecos que estavam esquecidos num canto e inicia com eles uma atividade que desperta seu interesse e a diverte...
As crianças costumam se dirigir aos adultos com essa queixa: 'não tenho nada prá fazer'. Geralmente, nesse momento se inicia uma sequência de sugestões do tipo 'que tal fazer isso, que tal fazer aquilo', e o mais comum é que  todas sejam  rejeitadas pela criança. A situação tende a ficar tensa, com os pais irritados e filhos cada vez mais insatisfeitos.
A reação da mãe de Tati é supreendente. Ela não se coloca na posição de quem é responsável por resolver o aborrecimento da filha. Dizendo que o incômodo faz parte da vida, mostra à garota  aceitação do sentimento que a perturba. Dessa maneira transmite a mensagem de que não é necessário que esse estado seja imediatamente eliminado. A tolerância por parte do adulto contribui para que a criança possa encontrar os próprios caminhos. No nosso exemplo, a garotinha assumiu a direção, fez a escolha e certamente desenvolveu sua capacidade criativa. Isso  não teria acontecido se a mãe tivesse acreditado que poderia lhe 'facilitar a vida'...
A cena mostra também como a televisão pode ser nociva quando utilizada para afastar a criança do contato com dificuldades que são, como falou essa mãe, parte da vida. A anestesia e o torpor que a menina procurava na tela teriam causado no seu dia um empobrecimento lamentável.

Você já observou como seu filho enfrenta situações de tédio? Poderia de nos contar como você reage?

Marcia Arantes e Helena Grinover

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terça-feira, 10 de julho de 2012

Os pais precisam errar...

Marília tem seis anos e está sendo alfabetizada. Sua mãe, que se encontra em viagem, escreveu-lhe uma carta. O papel é cheio de desenhos coloridos, letras enfeitadas e as palavras bem escritas dão parabéns à filha por suas conquistas recentes. A garota fica um bom tempo séria, analisando o texto... Alguém lhe pergunta o que houve e ela responde que na última linha a mãe fez um erro, trocou uma letra.
As crianças pequenas choram ou ficam bravas quando os pais não atingem suas expectativas. Mas há um momento em que elas parecem fazer questão de apontar e denunciar as 'falhas'. Agora já se sentem suficientemente seguras para poder vê-los assim, menos idolatrados. 
Na nossa história, Marília está atravessando as dificuldades normais do processo de alfabetização. Diante de uma carta tão 'linda e maravilhosa' precisou bater os olhos justamente no pequeno erro cometido por sua mãe. Nesse momento, ela está também querendo ver a reação dos adultos. Caso se mostrem tolerantes quanto aos próprios erros dizendo coisas do tipo: 'é mesmo, bem observado; vale um esforço para escrever corretamente na próxima ', ajudarão a menina a suportar os tropeços do caminho.
Essa atitude de aceitar as críticas e observações das crianças propicia a elas maior liberdade e sentimentos de confiança no futuro. Trata-se de oferecer-lhes, no lugar de discursos, a experiência do 'errar é humano', sem sofrimentos exacerbados para a situação. A busca pelo sucesso pode então ter mais leveza e desprendimento...

Helena Grinover e Marcia Arantes

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terça-feira, 3 de julho de 2012

Vamos guardar os brinquedos?



'Acabou de brincar? Agora vamos guardar os brinquedos. Eu te ajudo!' diz a mãe de Paulo, menininho de 2 anos. 'Que lindos seus desenhos! Agora precisamos limpar as tintas e pincéis!', diz a educadora de Carla, de 3 anos. 'Hora de arrumar sua mochila! O que tem que levar prá escola hoje?' pergunta o pai de Lucia, garotinha de 6 anos.
Sábios pais e educadores que estão ajudando as crianças a se 'organizarem'. Trata-se um longo processo que se inicia por volta dos 2 anos e prossegue por toda a vida.
Quando a criança brinca, deve ficar mergulhada no mundo da fantasia, onde tudo se organiza de acordo com a imaginação: vale inventar cenários, ver o invisível, exprimir livremente as idéias. É um momento fundamental para o desenvolvimento da criatividade e da independência, nos quais os adultos não devem por ordem, apenas limites de proteção. Mas é igualmente fundamental ajudar a criança a fazer a passagem para o mundo da realidade no qual a organização proposta pelos adultos é necessária. A criança, ao ser solicitada a guardar os objetos com os quais está se divertindo, é estimulada a estabelecer essa passagem, o que inclui suportar certa dose de frustração...
No momento em que o tigre é colocado dentro do caixote de brinquedos deixa de ser a fera ameaçadora, e passa a ser um inerte bichinho de pelúcia... A arrumação dos objetos também ensina que, na realidade, eles não aparecem e desaparecem magicamente, portanto podem ser encontrados quando forem procurados, permitindo maior autonomia àqueles que os guardaram.
Requisitar os pequenos para essa tarefa é bastante trabalhoso; eles costumam resistir, ou fazer ainda mais 'bagunça' para reorganizar o que usaram. Frequentemente os adultos ficam tentados a dispensá-los, acreditando que  os estão poupando de uma tarefa pesada demais.
Nosso propósito é justamente lembrar a importância dessa solicitação. Quando a mãe do Paulo o estimula a guardar os brinquedos, está plantando as sementes que germinarão em capacidade de se concentrar e prestar atenção, planejar, estabelecer prioridades, realizar projetos. Vale a insistência!

Marcia Arantes e Helena Grinover


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terça-feira, 26 de junho de 2012

Está escondido, não sumiu para sempre...
























A mãe de Gilberto, garoto de três anos de idade, relata que só sai de casa quando ele está dormindo. Desta maneira evita o sofrimento e a enorme choradeira do filho. Para deixá-lo na escola, vai embora sem que ele veja. A separação só pode ocorrer assim: às escondidas.
Na vida das crianças, a ação de esconder ocupa um lugar bastante importante. Os bebês, com poucos meses, já se divertem diante da surpresa de sumir e aparecer por trás de uma fralda. Mais tarde começam a jogar ou deixar cair objetos para observar o 'desaparecer e reaparecer'. Segue-se um número infindável de jogos infantis como o esconde-esconde, cabra cega, pique, cabanas e casinhas, onde os pequenos somem das vistas dos adultos, e uns dos outros.
Todas esses brincadeiras criam e fortalecem a capacidade de aguentar as separações, o tempo em que  algo ou alguém querido deixa de estar junto à criança sem causar uma angustia insuportável.
O espaço entre a ausência e a presença só pode ser ultrapassado com tranquilidade quando há a certeza de que o desaparecido continua a existir. Apesar de não estar sendo 'visto pelos olhos' está presente e vivo na memória, na imaginação, no pensamento. Assim se constrói o universo mental que dá suporte ao desenvolvimento de atividades criativas e culturais como: brincar, estudar, escrever, trabalhar...
A mãe de Gilberto procura poupá-lo do sofrimento causado pela separação. Entretanto, a estratégia usada por ela tende a aumentar a insegurança do garoto, pois acrescenta mistério a algo que seria corriqueiro. Desta maneira, o filho não consegue participar do movimento da mãe usando sua capacidade mental para mantê-la viva e presente dentro dele. Conversar e iniciar pequenas ausências na presença do menino poderia desencadear um processo inverso no qual ele iria ganhando maior independência.
Representar as cenas de 'ir e vir' por meio de brincadeiras, estórias, canções, promove essa construção fundamental para todas as capacidades mentais da criança.

Helena Grinover e Marcia Arantes

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terça-feira, 19 de junho de 2012

A história do filho adotado


























'Olha que gracinha! É a cara do pai!' diz a tia. 'Os olhos são iguais aos da mãe!' afirma a avó. ' A mãozinha é idêntica a do avô!' exclama orgulhoso o papai. Ou ainda, 'puxa, não tem nada da irmã!'
O bebezinho é frequentemente recebido com esses comentários. Parentes e amigos buscam semelhanças físicas, por vezes um tanto forçadas, para reconhecer que o novo membro é da família, faz parte das suas histórias. À medida em que for crescendo, outras características surgirão, gerando novas comparações. 'Ele tem o mesmo jeito de falar do pai'. 'Gosta de música como a avó'.'Não gosta de matemática como a mãe!'...'Puxou ao tio, é dorminhoco!'. Ou então: 'não sei a quem puxou, não tem ninguém assim na família.'
Quando o bebê não é filho biológico, a busca por traços físicos deixa de ter sentido. É por meio de outros caminhos que a família inclui a criança.
Muito cedo pais adotivos desenvolvem intimidade com o filho. Ao alimentar, acalentar, acalmar, educar, conhecer suas necessidades e desejos, eles se tornam as pessoas que a criança reconhece como seus pais. Este processo também fortalece nos adultos a identificação de que são os genitores dessa criança, o que os leva a dizer 'meu filho', sem precisar procurar 'a mãozinha parecida com a do avô'.
Entretanto, justamente por formarem uma família, estes filhos sentem também a necessidade de ter uma história que os una aos pais. Estes têm a função de contar à criança adotada como tudo começou: quanto a desejaram, como decidiram adotá-la, como foi o processo, a chegada, se sabem ou não algo a respeito da família de origem...
Essas histórias serão repetidas e repetidas...fornecendo um apoio fundamental para ela organizar um panorama de como e porquê entrou na família. Sem esses relatos, a criança ficará girando em falso,  presa a uma indagação sem resposta que perturba a construção da idéia de quem ela é.
Espera-se que filho adotivo possa construir a sua subjetividade. Assim como o filho biológico, terá atitudes que os pais apreciam, outras que nem tanto, algumas características lembrarão certos membros da família, e outras não se saberá de onde vieram...

Marcia Arantes e Helena Grinover

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terça-feira, 12 de junho de 2012

O que fazer com a culpa?














'De novo seu irmão chorando'? diz o pai, irritado. 'A culpa não é minha...' responde o garoto. 'Não quero saber, se seu irmão vier chorando mais uma vez, você vai ficar de castigo, uma semana sem televisão', é a resposta imediata.
Não é fácil lidar com essas situações repetitivas sem perder a paciência.
O que estará acontecendo entre os dois irmãos? O menor pode estar provocando, chorando por não saber responder de outra maneira, obtendo satisfação quando o pai pune o maior. O mais velho pode estar impaciente com a pouca capacidade do pequeno para suas brincadeiras, não percebendo sua própria força, expressando a raiva sem controle.
A resposta do garoto mostra que ele precisa se livrar rapidamente da culpa, já imaginando que será acusado de causar a infelicidade do irmão. O pai confirma esse pensamento ao ameaçar com o castigo automático.
Dar aos irmãos a palavra possibilitaria mostrar a cada um sua participação nas desavenças e responsabilizá-los por ela. Ouvir o que dizem a respeito é a única maneira de saber como o desentendimento é visto por eles e, então, oferecer-lhes alternativas que o adulto julgar adequadas.
Impor um castigo não permite à criança mudar a situação pela qual foi castigada, e a imobiliza na culpa. Ela não poderá fazer nada senão sofrer passivamente a pena imposta, no nosso exemplo 'ficar sem televisão'. Por outro lado, levá-la a perceber o que fez, oferecer-lhe um meio de reparar  ativamente o erro cometido colabora para sua saúde psíquica, sua dignidade, sua formação ética. É ensinar o seguinte: você é o autor, a pessoa que fez a ação e pode também arcar com as consequências: pedir perdão, consertar o que quebrou, ajudar a quem prejudicou, alterar a brincadeira, colaborar para uma mudança efetiva de acordo com suas capacidades.
Todo ser humano tem direito a uma oportunidade para se redimir. Na infância, quando a criança é chamada a se responsabilizar, tem a chance de recuperar seu valor sem ficar inferiorizada pela culpa.

Helena Grinover e Marcia Arantes
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terça-feira, 5 de junho de 2012

Estar não é ser!

'Não deixo mais minha filha brincar com essa menina. Ela é malvada! Faz coisas ruins!' 'Meu filho está falando muito palavrão. Digo a ele que quem faz isso é feio'.' O Paulinho agora deu para ser tímido, ficou o tempo todo agarrado em mim durante a festa'.
No processo educativo os mais velhos oferecem referências que orientam os mais novos sobre o que é certo, valorizado, desejável, prejudicial. No entanto, é igualmente importante ajudá-los a perceber que os valores se referem aos comportamentos, e não às pessoas.
Quando dizemos que uma criança  é malvada porque bateu em alguém, condenamos a criança e não o seu ato de malvadeza.  Tiramos dela a possibilidade de rever sua atitude e se comportar diferentemente em outra ocasião. Afinal, um malvado é sempre malvado...
A tarefa de educar inclui promover mudanças. Os pais, para exercerem seu papel, precisam acreditar que sua interferência produz alterações, e as crianças precisam  saber que eles têm essa crença.
Toda vez que se utiliza o verbo 'ser' , a visão  da situação tende a se imobilizar, como numa brincadeira de 'estátua'. Ao contrário, quando utilizamos o verbo 'estar',  a possibilidade de transformação permanece no horizonte. O Paulinho pode 'estar' tímido em uma situação e 'à vontade' em outra.
 Dizer que 'é ruim bater no colega' é bem diferente de dizer que 'quem bate no colega é ruim'. Os educadores se tranquilizam e são mais justos quando entendem essa diferença, pois podem punir uma atitude específica, sem estigmatizar a criança. Esta  ficará aliviada sabendo que há meios para consertar a 'coisa errada' que fez. Isso  a fortalece.

Marcia Arantes e Helena Grinover

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terça-feira, 29 de maio de 2012

Criança desesperada!


'Ele não gosta dessa comida, então eu preparei um macarrão, senão, sei que não comeria nada', diz a mãe de um menino de seis anos. 'Já me disseram que faço tudo o que ela quer, que devo ter mais voz ativa', são as palavras da mãe de uma garota de quatro anos sobre a cena de birra diante da loja de brinquedos'. As crianças sentem muito quando o pai viaja; então, sempre que volta, traz tudo que elas pediram', é o comentário de outra mãe.

Até que ponto é importante satisfazer a vontade dos filhos?

Há um período inicial em que os pequenos devem ser atendidos quase que integralmente. Precisam dessa dedicação para que possam construir a confiança nos adultos, na sua própria capacidade de suportar frustrações e manter a esperança no futuro. Podemos, por exemplo, observar como os bebezinhos aguentam cada vez mais tempo, sem chorar, a espera por um adulto que os atenda. Eles adquirem tolerância e sem desespero confiam na satisfação que virá. Essa conquista se estende para a vida: esperar os pais na saída da escola, o doce preferido na sobremesa, o presente no dia do aniversário, a chegada dos amigos, os encontros com namorados. Também deverá haver tolerância para concluir a lição, prestar atenção nas aulas, enfrentar dificuldades no trabalho ...

O imediatismo faz parte  das relações  de vício e dependência. Quando a falta de algo é insuportável, a esperança desaparece do horizonte e tudo 'tem que ser já'.

Para criar esse recurso interno da tolerância e confiança no futuro, a criança precisa de uma alternância de duas situações: ser atendida  o suficiente para não se desesperar  e também ser frustrada para continuar buscando o que deseja. O desafio nessa jornada é a dosagem de cada uma dessas situações. Com intuição e sabedoria a dose será definida de maneira variável na interação particular de cada criança com sua família e educadores, naturalmente com muitas idas e vindas.

Nos nossos exemplos, os pais mostram diferenças e dúvidas. Não podemos saber se seus filhos receberam demais ou se foram submetidos a carências insuportáveis em determinado momento, pois ambos os casos  podem redundar em 'intolerância'.

É preciso cuidado quando, rapidamente, dizemos que 'os pais hoje em dia fazem tudo que seus filhos querem', como se a solução fosse frustrá-los.  Algumas crianças ou jovens realmente precisam de uma  atenção especial, mas esta deve ser para ajudá-los a ultrapassar, sem desespero, a angustia diante dos desejos não atendidos. Certamente, isso não se dará com pais e mães oferecendo comidas, brinquedos...

Helena Grinover e Marcia Arantes

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